Gerúndio Absoluto

A vida, esse gerúndio absoluto, segue passando, segue acontecendo, segue sendo, segue escorrendo pelos dedos feito água de banho pelo ralo. 
Eu tento agarrar alguma coisa com as minhas unhas imundas de gente que vive. Eu tento guardar alguma coisa junto ao peito. Proteger. Proteger, por amor, o instante em que amo. Apertar forte contra o peito como se fosse a minha mochila no ônibus lotado. Guardar um momento como se fosse coisa, sabe? 
É apego. É apego o nome disso. Apego pela vida. Apego pelas coisas mundanas. Apego por tudo, eu confesso, apego até mesmo pelas coisas mais banais tais como... 
Tia Cidinha diz que eu sempre fui assim desde criança. Diz que faltaram uns bons de uns tapas na minha criação. Diz que se ela fosse minha mãe as coisas seriam diferentes. Diz que pra viver as coisas da vida com prazer é preciso aprender a desapegar. 
A minha tia Cidinha é profissional na arte do desapego — ela mesma é quem diz isso: que é uma arte e que ela é profissional dessa arte. Ela fala também que para cada coisa da vida há uma solução prática, pra todo problema uma resolução simples, que tudo é questão de ter inteligência emocional, que sendo a vida um jogo, basta ter uma tática, ter uma estratégia bem definida. 
Eu não sei onde a tia Cidinha aprendeu tanta coisa, mas o fato é que a estratégia da tia Cidinha pra lidar com a vida, esse gerúndio absoluto, é mesmo infalível: a tia Cidinha não existe.

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