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Pandemia escutatória

Digo isso tudo pra dizer isso tudo mesmo. Mas se alguém me perguntasse qual o valor da escuta… Ah! Eu diria que é imenso, é evidente que é imenso, é evidente que eu sonho com o dia em que uma pessoa consiga essa proeza, realize esse feito excepcional — que dia memorável: “uma pessoa escutou o que a outra disse, foi no interior do país, numa cidade pequena, as pessoas estavam ali reunidas em torno de suas palavras até que, para o espanto de toda a gente, uma escutou a outra”. E desse instante em diante, contágio! A coisa se alastrando com velocidade. Eu imagino isso na boca dos jornalistas do mundo todo: uma pandemia escutatória! E eu… Ah! Eu marcando uma reunião de condomínio, eu no sindicato com os meus colegas de profissão, eu indo ao psicanalista, eu entrando num confessionário, eu conversando com o amor do passado, eu conversando com o amor do presente, eu conversando com o amor do futuro, eu-futebol-política-e-religião, eu e tantas e tantas canções perdidas, eu com um megafone na ...

Gerúndio Absoluto

A vida, esse gerúndio absoluto, segue passando, segue acontecendo, segue sendo, segue escorrendo pelos dedos feito água de banho pelo ralo.  Eu tento agarrar alguma coisa com as minhas unhas imundas de gente que vive. Eu tento guardar alguma coisa junto ao peito. Proteger. Proteger, por amor, o instante em que amo. Apertar forte contra o peito como se fosse a minha mochila no ônibus lotado. Guardar um momento como se fosse coisa, sabe?  É apego. É apego o nome disso. Apego pela vida. Apego pelas coisas mundanas. Apego por tudo, eu confesso, apego até mesmo pelas coisas mais banais tais como...  Tia Cidinha diz que eu sempre fui assim desde criança. Diz que faltaram uns bons de uns tapas na minha criação. Diz que se ela fosse minha mãe as coisas seriam diferentes. Diz que pra viver as coisas da vida com prazer é preciso aprender a desapegar.  A minha tia Cidinha é profissional na arte do desapego — ela mesma é quem diz isso: que é uma arte e que ela é profissional des...